Thursday, February 01, 2018

Grid Girls: uma questão de mercado


Entregador de leite, arrumador de pinos de boliche, despertador humano, cortador de gelo, acendedor de lampiões. Isso para ficar apenas em profissões, sem contar os carregadores de liteira e as amas de leite, que eram funções de escravos. A humanidade sempre assistiu à incorporação e ao desaparecimento de profissões, como sinais dos tempos.

Quando a Liberty, empresa que controla a Fórmula 1 atualmente, informou que estudava a ideia de eliminar as “grid girls” das corridas, a grita já começou. Nesta semana, a mudança foi anunciada: nada de mulheres gostosas segurando placas com os números dos pilotos.

Não foram poucos os comentários sobre o fim de uma profissão “que não tem mal nenhum em ser exercida”. Concordo. Como não havia mal nenhum em empregar garotos para levantar pinos de boliche ou submeter trabalhadores ao sacrifício de cortar gelo. Só que a humanidade se transforma, e não serei tola em usar a palavra “evolui”. Foram aspectos como o desenvolvimento industrial, com a automação, por exemplo, que eliminaram esses postos de trabalho.

O garoto pobre que levantava pinos de boliche para os burguesinhos se divertirem nas noites de sábado certamente saiu chutando pedra, chateado e desgostoso, quando perdeu seu emprego. E foi fazer outra coisa, simplesmente porque aquela função já não fazia sentido em uma sociedade industrial.

Eu adoraria pensar que a decisão da Liberty atende ao anseio de uma parte cada vez maior de mulheres que não deseja ser um objeto de decoração em um ambiente badalado, carregado de testosterona. Mas talvez o atendimento desse desejo tenha acontecido por uma via bem tortuosa.

Quando assumiu a Fórmula 1, a Liberty realizou uma pesquisade mercado junto ao seu público, para mapear quem anda assistindo às provas de Fórmula 1 e descobriu um público potencial considerável para aumentar sua lista de fãs do esporte – as mulheres.

Além de conquistar o público feminino que ainda não se interessa pelas corridas, a empresa percebeu que já estava, na órbita da Fórmula 1, um contingente de mulheres que já assistiam às provas. Faziam isso para acompanhar companheiros fanáticos pelas corridas, não amavam nem odiavam o esporte, mas também não se sentiam atraídas por ele. Não se sentiam representadas em um ambiente no qual as mulheres ocupavam espaço de figura decorativa.

É com olho nesse público potencial que a Fórmula 1 está. (Da mesma forma que quer cativar as companheiras, a Liberty também está empenhada em trazer os filhos desses fãs da categoria, porque a tal pesquisa apontou que a idade média dos fanáticos por corridas ultrapassava os 40 anos, ou seja, F1 em geral se tornou esporte de tiozinho.)

Em um tempo no qual as discussões sobre empoderamento feminino ganham repercussão, alinhar-se ao tema já é, por si só, uma forma de fazer barulho e, no mínimo, atrair a atenção do público que almeja. Tem muito menos feminismo e muito mais interesse de mercado na decisão da Liberty.


Mas é alentador saber que, como amas de leite ou levantadores de pinos de boliche, as “grid girls” ficaram para a história.

Thursday, December 28, 2017

Roda Gigante

Kate Winslet: uma Ginny complexa e amoral
Algo pode ser menos sutil do que um salva-vidas tornar-se amante de uma mulher casada e infeliz? Talvez o fato de seu marido trabalhar como mecânico de um carrossel, emulando uma vida que só gira, sem sair do lugar? Se for para enumerar os lugares-comuns de “Roda Gigante”, o mais recente filme de Woody Allen, talvez seja possível preencher vários parágrafos (o personagem-narrador, a trilha sonora composta por clássicos de jazz, o garoto desajustado e, não por acaso, fascinado por cinema). Mas enumerar as obviedades de “Roda Gigante” é um exercício mal-humorado de quem prefere ignorar seus grandes atributos.

O maior deles: Kate Winslet. Desde o lançamento, a personagem Ginny tem sido seguidamente comparada à Blanche DuBois de Vivien Leigh, de “Uma rua chamada pecado”, ou à Jasmine de Cate Blanchett, de “Blue Jasmine”, do mesmo Woody Allen (e o que seria Jasmine senão uma homenagem/releitura da própria Blanche?). Complexa e amoral, Ginny é daquelas pedras brutas que uma atriz como Winslet recebe e transforma em uma personagem indefinível, um misto de fragilidade e astúcia com a qual é impossível não se identificar.

Azul de tristeza: as cores falam em "Roda Gigante"
 Imersa em um cotidiano duro e enfadonho, Ginny trabalha como garçonete em um restaurante na já decadente Coney Island, nos anos 1950. Casada pela segunda vez com Humpty, um sujeito bruto (Jim Belushi) que ganha a vida cuidando do carrossel do parque, Ginny é uma ex-atriz que nunca obteve sucesso, casou-se com um baterista a quem traiu e com quem teve seu único filho, o garoto Richie (Jack Gore), que tem a estranha compulsão de atear fogo em objetos, e gasta o tempo que deveria passar na escola... no cinema. O salva-vidas Mickey (Justin Timberlake) aparece na vida de Ginny e os dois passam a ter um caso, até que ele conhece a filha de Humpty, Carolina (Juno Temple), recém-separada de um gângster, e se apaixona por ela.


Carolina: a enteada
Queixando-se de uma enxaqueca que parece eterna, Ginny tem a expressão torturada pela culpa. Em um cortante monólogo, ela explica como a traição ao primeiro marido desencadeou a série de infortúnios que a jogaram naquele universo. Ou, pelo menos, o que parece ser a explicação lógica para ela de todas as suas mazelas. O texto de Allen, o desempenho de Winslet, a direção, a fotografia e a direção de arte criaram juntos, neste monólogo, uma das sequências mais agudas que uma atriz entregou aos espectadores de cinema nos últimos anos. Ginny laça o espectador de forma tão arrebatadora que não é um risco muito grande acreditar que a plateia torcerá junta, por ela, por mais amoral que ela possa parecer.

“Roda Gigante” é Kate Winslet, e isso não é demérito para o filme. Os demais atores parecem se resignar – ou, antes, se orgulhar – por estar gravitando no mesmo ecossistema daquele monumento de atriz. No entanto, “Roda Gigante” não é só Kate Winslet. É um filme atormentado de Allen, forjado no desencanto das relações humanas e na inexorável certeza de que toda história pode ter algo mais cruel do que um fim: a inércia de continuar.

O apartamento-vitrine, banhado em vermelho: tudo exposto, tudo oculto
As cores dizem muito no novo filme de Allen. A fotografia do parceiro habitual, Vittorio Storaro, sustenta-se quase todo o tempo em um tripé vermelho-azul-amarelo, tons facilmente identificáveis com momentos específicos. Quase sempre em alta saturação, as cores gritam sentimentos e é quase cortante a tristeza de Ginny em certos momentos banhados de azul. Fortemente ancorado no apartamento de Ginny e Humpty, “Roda Gigante” brinca com paradoxos: a casa envidraçada, praticamente uma vitrine dentro do decadente parque, esconde atos terríveis e sentimentos destrutivos. E é muito revelador do moto-contínuo da história que Ginny diga à enteada que o local, antes, costumava abrigar um show de aberrações.

Usando o cenário como mais um objeto de opressão para aquelas tristes figuras, Allen vale-se de planos longos nos quais as colunas, janelas e cortinas da casa marcam as distâncias e barreiras entre os membros daquela família disfuncional onde o pequeno incendiário parece a figura humana mais próxima do saudável.

“Roda Gigante” tem sido apontado como uma alegoria de Allen para sua própria situação afetivo-familiar, desde que assumiu um romance com a enteada Soon-Yi Previn, sua esposa desde 1997. Ainda que uma das falas de Ginny não pudesse ser mais explícita no sentido de acusar Humpty quanto aos reais sentimentos dele por Carolina, parece meio forçado enxergar na trama qualquer auto referência, inclusive porque relacionamentos, amores, traições, desilusões são temas recorrentes na obra de Allen. E enxergar Ginny como resposta misógina de Allen à ex-esposa Mia Farrow, além de forçado, parece incoerente, porque Ginny torna-se tão humana que é impossível não se identificar com ela.

“Roda Gigante” pode não estar à altura de obras-primas de Woody Allen, como “Noivo neurótico, noiva nervosa”, “Hannah e suas irmãs” ou “A era do rádio”, mas a colcha de sentimentos e situações tão cruelmente engendrados na vida de uma pessoa comum, entregue pelo desempenho tão magistral de Kate Winslet, vale cada um dos 101 minutos do filme.

Wednesday, September 20, 2017

mãe!


É lamentável, embora não totalmente surpreendente, que “mãe!”, o mais recente filme escrito e dirigido por Darren Aronofsky, tenha sido recebido com vaias em sua estreia no Festival de Veneza. Também não surpreende que o primeiro final de semana de exibição, nos Estados Unidos, tenha sido decepcionante (arrecadou 7,5 milhões de dólares contra 60 milhões de “It – A Coisa”). “mãe!” só será digerido e eventualmente admirado se o espectador compreender que praticamente tudo o que está na tela é alegoria, não representação real. O que, convenhamos, é um exercício pouco habitual para a maior parte das plateias.

A própria sinopse já revela o nonsense: o casal formado por um poeta em bloqueio criativo (Javier Bardem) e sua esposa (Jennifer Lawrence) mora em uma casa isolada que, certa noite, recebe a visita de um homem desconhecido (Ed Harris). Mesmo sem saber de quem se trata, o poeta convida o homem a pernoitar em sua casa para, na manhã seguinte, receber a esposa desse estranho visitante (Michelle Pfeiffer). A relação entre os dois casais, a chegada de dois filhos dos visitantes e eventos que incluem violência e morte tencionam a relação entre o poeta e sua esposa, que se descobre grávida. O desenrolar da gestação ocorre em paralelo à volta do poeta à ativa, e a história se encaminha para seu desfecho com o nascimento do filho e o lançamento do novo poema.

Ir além na descrição da história é impossível sem entregar pontos-chave da trama, algo que só vai estar presente na segunda parte deste texto, com alerta de spoilers. Também parece coerente certa decepção da plateia em relação a “mãe!” partindo-se do trailer divulgado nas semanas anteriores ao lançamento, que apresentava o filme como uma espécie de “O bebê de Rosemary” revisitado. Os dois filmes, de fato, têm alguns pontos em comum, mas não a ponto de “mãe!” poder ser considerado uma releitura do filme de Roman Polansky.

Do ponto de vista cinematográfico, “mãe!” oferece diversos elementos que reforçam a capacidade criativa de Aronofsky, criador de “Cisne Negro”, “O Lutador”, “Réquiem para um sonho”, entre outros. Estruturado quase como uma peça de teatro, inclusive nas interpretações, o novo filme exala claustrofobia em suas primeiras sequências. Imagens em primeiríssimo plano, fechadas nos rostos dos personagens, acentuam a sensação de aprisionamento.

Praticamente sem trilha sonora em seus primeiros dois atos, o filme tem design sonoro preciso, utilizando sons, como de objetos caindo ou se quebrando (recorrentes no filme) como marcadores de ritmo e criadores de tensão. À medida que o filme avança para seu segundo ato, os planos começam a se tornar menos fechados e a câmera, mais ágil. A cena da briga entre os filhos do casal Ed Harris-Michelle Pfeiffer injeta energia no ambiente sem abandonar o caráter onírico que permeia praticamente todo o filme.

Não é à toa que os personagens sejam aqui descritos sem nomes, já que é desta forma que eles se apresentam todo o tempo, algo que pode ser visto como chave para a interpretação daquela história aparentemente sem nexo. Nesse ambiente impessoal, no entanto, a composição dos dois personagens centrais – o poeta e sua musa – é irrepreensível, tanto do ponto de vista de interpretação quanto de direção. Mais que isso: o roteiro de Aronofsky oferece todos os gatilhos para que o espectador rapidamente se identifique e entenda as motivações de ambos, chegando ao final da história completamente envolvido por aquele casal. Se – e somente se – entender a grande alegoria desfiada em situações tão exóticas nos 121 minutos de filme.

Mãe! – uma interpretação, com spoilers

"mãe!" é uma obra aberta como poucas têm surgido no cinema norte-americano nos últimos tempos. A interpretação a seguir é uma possibilidade, a partir de percepções subjetivas, e o define como uma alegoria do artista em seu processo criativo. Mas parece evidente que o balaio de “mãe!” comporta múltiplas visões, que têm se estendido por temas tão diversos quanto ecologia (a “mãe” feita por Lawrence como representação do planeta Terra) a intolerância religiosa.


Em uma das primeiras cenas, o personagem de Javier Bardem aparece segurando uma pedra, logo identificada como preciosa, pelo lugar de destaque que ela passa a ocupar em um nicho da sua estante. Também nas primeiras sequências, o filme introduz a figura da esposa do personagem, Jennifer Lawrence, a todo instante definida por ele como sua “musa”.

Para além da relação de um casal, o filme ganha muito mais sentido se for percebido como um momento na vida de um artista no qual ele se encontra em bloqueio criativo e dialoga com suas referências e fantasmas. Sob essa perspectiva, tudo o que se vê na tela é a mente desse artista debatendo-se com elementos afetivos, sociais, sexuais, históricos, religiosos (o fogo, o inferno, a culpa, o apocalipse, está tudo lá) – formadores de sua obra – e agarrando-se ao aspecto aparentemente mais frágil, intocado e etéreo de todos – sua inspiração. A personagem de Jennifer Lawrence não seria, sob essa perspectiva, a esposa do poeta que dá à luz seu filho, mas a inspiração que lhe permite gerar e parir novas obras.

Isolado do mundo, cultivando sua inspiração, o poeta sabe-se impotente diante da prevalência de tudo que já habitou sua história. O homem moribundo que lhe bate à porta (Ed Harris) surgiria como a figura do pai – o seu próprio pai, ou ele mesmo, como pai/criador de sua obra. A morte iminente do visitante, uma representação da finitude de sua existência.

A esposa desse homem (Michelle Pfeiffer), uma síntese de figuras femininas, misturando a altivez de uma mãe dominadora com a sensualidade de uma mulher plena, quase cruel. Enxergando o personagem de Bardem como um artista/poeta, é quase lógico enxergar nessa visão a fragilidade de um ser sensível diante de uma figura que transpareça, ao mesmo tempo, segurança e provocação, ternura e luxúria.



Os filhos deste casal – Caim e Abel redivivos – o símbolo de uma fraternidade que se autodestrói, podendo ser ao mesmo tempo a humanidade condenada a seus flagelos, pelo pecado original, ou os produtos da mente do poeta – seus escritos – duelando pela condição de obra-prima.

É quando se desprende dessa herança primária aprisionadora que o poeta finalmente entrega-se à inspiração (sua musa) e se deixa fundir com sua seiva. Fecundada, a musa sabe-se pronta a dar frutos (tanto que já não bebe a poção amarelo-ouro que parece lhe servir como combustível). Grávida, ela anuncia que o bebê se moveu em seu ventre. E o poeta confirma: são os primeiros versos nascendo de sua pena. O filho-poema vai crescendo em ambiente de aparente paz, ainda que a musa-inspiração se depare, vez ou outra, com sinais inequívocos de que o ímpeto criativo brota por todos os poros daquela casa-cérebro, que verte sangue pelas paredes.


Prestes a dar à luz, a musa surge em representação perfeita de uma deusa grega – e não custa lembrar que o Olimpo contava com nove musas entre suas divindades. Pressionado por sua editora e por seu público a divulgar a nova obra, o poeta já não disfarça que talvez sinta tanto prazer e orgulho por ter escrito o poema quanto por ser idolatrado. Não se furta a deixar que invadam sua casa-mente para demonstrar sua admiração, sua idolatria, seu fanatismo, sua cegueira. O bebê-poema que chega ao público cumprirá seu destino quando for recebido, possuído, consumido pela horda insana.


À musa – produto de sua mente, criada para alimentá-lo com um amor desmedido (em certo ponto, ela diz: “Você nunca me amou, você amava o meu amor por você.”) – apenas sobrará o caminho de consumir-se no fogo da culpa (cristã?) daquela mente. Ela lhe rendeu o diamante que ele lapidou e transformou em novo poema. Mas ele continuará sangrando o desejo irrefreável de produzir novamente. Para isso, criará em sua casa em escombros mais um artifício para alimentar sua alma – outra musa.

Sunday, September 03, 2017

Bingo e a memória afetiva dos anos 1980


Eu assistiria "Bingo, o rei das manhãs" mais algumas vezes nem que fosse apenas pela magnífica cena em plano sequência, no primeiro ato do filme. Nela, o protagonista interpretado por Vladimir Brichta caminha por um corredor, acessa um estúdio, adentra o cenário e tem conversas intercaladas com outros dois personagens. Simples, adequada, sem loopings mirabolantes de câmeras, a sequência funciona como uma espécie de marca registrada do diretor, Daniel Rezende.

Marca registrada? Em um primeiro longa metragem? Espera. Lembra de "Cidade de Deus"? A cena da galinha? A famosa cena da galinha? O que une as duas obras? Ele mesmo, Daniel Rezende, responsável pela montagem de "Cidade de Deus" e de uma extensa filmografia que inclui "Narradores de Javé", "Diários de Motocicleta", "Ensaio sobre a Cegueira", "A Árvore da Vida", entre outros. O domínio da ação e dos movimentos de câmera é evidente em "Bingo, o rei das manhãs", mas está longe de ser sua única virtude.

O roteiro retrata o ator Augusto Mendes (baseado no verídico Arlindo Barreto, vivido por Brichta), o primeiro palhaço Bozo do programa infantil levado ao ar pelo SBT, nos anos 1980. Filho da também atriz Márcia de Windsor (Márcia Mendes, na trama, interpretada por Ana Lúcia Torre), Barreto mantinha uma pouco notável carreira de ator antes de ser escolhido para viver o palhaço no programa infantil, reprodução local de uma franquia de entretenimento norte-americana. Subvertendo alguns padrões originais, o programa alcançou a liderança da audiência no período da manhã e catapultou Barreto a uma fama "de mentira", já que, por contrato, sua identidade não podia ser revelada.

"Bingo" é estruturado de forma clássica, em três atos distintos - a frustração do início da carreira, a fama (somada à trinca álcool, sexo e drogas) e o desfecho unindo decadência e redenção. Com roteiro de Luiz Bolognesi, o filme mescla diálogos ágeis e eventualmente cômicos (especialmente pelo contexto) a cenas de grande peso dramático, e a alta saturação de imagens nesses momentos, somada a uma trilha sonora excessivamente tensa, talvez seja o único deslize do filme.

Já que se trata de um filme sobre televisão, Rezende brinca com a textura das imagens de forma admirável ao longo das quase duas horas de projeção. A imagem límpida captada no estúdio transforma-se na visão granulada dos antigos aparelhos de TV "de tubo", reforçando a dubiedade daquele personagem que se torna uma celebridade, paradoxalmente escondida em uma identidade secreta.

Para as gerações que cresceram nos anos 1980, "Bingo" é pura memória afetiva: o Opala laranja 4.1 do protagonista, os cabelos repicados no estilo Farah Fawcett, as fitas cassete BASF, a secretária eletrônica, o despacho da Censura que antecedia cada programa de TV, usado aqui para apresentar o filme, no breve crédito de abertura. Méritos para a direção de arte, a cargo de Cassio Amarante, e para o figurino, de Verônica Julian. E, aumentando a sensação de nostalgia dos anos 1980, "Bingo" ainda aposta em uma trilha sonora que mistura Titãs, Echo and the Bunnymen, Gretchen, Metrô, David Bowie, entre outros.

Se o obscuro Augusto Mendes rapidamente se torna alvo de simpatia do espectador, grande parte do mérito deve-se a Vladimir Brichta, que consegue imprimir no personagem doses generosas de fragilidade, ironia, malícia, astúcia e afeto. E faz isso de forma alternada, com e sem a espessa pintura de palhaço que o transforma em "Bingo". Graças a isso, em um momento é possível ver um ator de cara limpa assumindo expressões histriônicas, como se estivesse no picadeiro, e, em outro, um palhaço entregando toda tristeza no olhar de quem acabou de arruinar o dia do próprio filho.

Melancólico em seu ato final, "Bingo" ainda brinda o espectador com mais uma sequência longa, francamente inspirada em "Birdman", de Alejandro Iñárritu, retratando a decadência e a redenção do personagem, em um desfecho que pode soar moralizante. No entanto, a habilidade do roteirista, em traçar um paralelo entre arte e religião, revela-se como a solução sagaz para contar o fato, sem deixar de refletir sobre ele.

Sunday, July 16, 2017

Carros 3: a mulher e o espaço concedido

O novato Jackson Storm (à esquerda) e Relâmpago McQueen
A franquia “Carros” beneficiou-se largamente da evolução das técnicas de animação no intervalo de onze anos que separa o primeiro filme da série, de 2006, do terceiro, recém-lançadono Brasil. As cenas de corrida são realistas a ponto de parecerem transmissões de provas de Nascar, o campeonato norte-americano mais famoso de carros de turismo. E aparece aí um dos problemas de “Carros 3”: são poucas cenas de corrida.

É certo que, desde o primeiro filme, a franquia “Carros” apoia-se no automobilismo como pano de fundo para discutir outras questões: a tradição suplantada pela modernidade, o surgimento de cidades-fantasma, a desvalorização de pessoas e profissionais mais velhos, meio ambiente, ganância, lealdade e amizade. Não é diferente agora: “Carros 3” é um filme sobre conflito de gerações, não sobre corrida. Mas é uma pena que justamente o melhor do longa – as corridas – ocupe tão pouco espaço, na comparação com as cenas de fundo moral.

Relâmpago McQueen, o personagem principal da franquia, é apresentado neste terceiro filme como um veterano multicampeão da Copa Pistão, vencendo corridas e campeonatos quase “no piloto automático” e vivenciando a competição com seus pares em clima de camaradagem. Até que uma nova geração de pilotos – forjada em simuladores de corrida – desembarca na categoria, liderada pelo novato Jackson Storm, e começa a desbancar os velhos competidores. Na ânsia por recuperar o antigo posto, McQueen sofre um acidente. Na volta às pistas, conta com o apoio de um novo patrão, que comprou sua antiga equipe, e a assessoria de uma preparadora de pilotos, Cruz Ramirez.

McQueen e a preparadora Cruz Ramirez

A ação do filme será toda centrada nessa nova dupla – McQueen e Ramirez – e é justamente nessa relação que o filme vai se apoiar para mostrar o choque de gerações. A ideia é contrapor o velho Hudson Hornet, antigo tutor de McQueen, mostrado em muitas e sentimentais cenas de flashback, a McQueen e sua jovem preparadora. Um “baby boomer”, um representante da geração X e um millenial: a reflexão sai das pistas e se aloja em praticamente qualquer ambiente corporativo.

Essa discussão de valores entre gerações ocupa a maior parte do filme e compromete enormemente o ritmo de “Carros 3”, ainda que o roteiro tire da cartola uma exótica prova disputada na terra, em uma sequência com elementos inusitados de “2001 – Uma odisseia no espaço”, “Kill Bill” e “Clube da Luta”. É nesta sequência que o filme introduz uma personagem feminina que começa a delinear a virada da história. Miss Friter, uma jamanta brutamontes, é a corredora “fêmea” com prazer sádico em derrotar os adversários. Depois dela, o espectador vai conhecer Louise Nash, uma veterana dos tempos de Hudson Hornet que diz ter roubado a credencial para poder participar de uma prova, algo vedado a “mulheres” na sua época.

Miss Friter: jamanta brutamontes sádica

A inclusão feminina na disputa surge como um alento naquele universo cheio de testosterona da franquia “Carros”, mas ainda que apareçam como inspiração para a grande virada da história, em seu ato final, a condução dessa virada soa frustrante. Ao contrário das antecessoras, a nova competidora alçará seu posto em um claro movimento de concessão masculina, aplicada como antídoto à sua evidente insegurança.


A impressão que fica, ao final de “Carros 3”, é a de que a Disney conduziu pesquisas junto à audiência que mostraram a necessidade de um maior protagonismo das mulheres na história. Sabe aquela situação? “Precisamos falar alguma coisa sobre as mulheres. ” E o excelentíssimo vai lá e fala que mulher é importante para conferir os preços no mercado. Mais ou menos isso.

Friday, July 07, 2017

Poesia sem fim: a arte catártica de Jodorowsky

Vida passada a limpo pelo crivo da arte
“Na velhice, você se desprende de tudo. ” Surgindo como uma espécie de consciência de si mesmo no autobiográfico “Poesia sem fim”, o diretor chileno Alejandro Jodorowsky, aos 88 anos, verbaliza ao final de seu mais recente longa algo que vai se tornando claro ao espectador durante os 128 minutos de filme. Aquele é um exercício catártico, de um homem apaziguado com seus dramas familiares, mas de um artista inquieto, em que pese a idade.

O conselho de desprendimento para o jovem artista, vivido por Adam Jodorowsky (filho do diretor), parece seguido à risca na concepção do filme. O velho diretor desprende-se inclusive do simulacro que habitualmente cerca a obra de arte e, logo no início, Jodorowsky menino surge ao lado dos pais em um bairro que não se pretende outra coisa que não cenário. O recurso vai se repetir muitas vezes durante o filme, com homens vestidos de preto compondo ou desconstruindo ambientes, sem cerimônia.

O jovem Alejandro (Jeremias Herkovits) e o diretor, enquanto consciência
Como em seu longa anterior, “A Dança da Realidade”, primeira parte dessa jornada autobiográfica, os pais do artista surgem em representações alegóricas. O pai, vivido por outro filho do diretor, Brontis Jodorowsky, é um tirano de inclinações nazistas, que oprime inclemente a vocação artística do garoto. A mãe, uma iídiche mama típica, vivida pela extraordinária Pamela Flores, canta dramaticamente todas as suas falas, como se estivesse em uma ópera eterna. Já no início do filme, um elemento visual importante surge na tela: bicicletas, e elas voltarão à história em momentos cruciais da narrativa.

A ruptura do jovem Alejandro com a família não poderia ser mais literal. Ao ceifar a árvore no quintal da avó, ele se desprende de sua genealogia e assume o risco de ser artista, abraçando uma vida que será, em tudo, diferente da rotina familiar. A paleta de cores do filme acompanha a mudança. Saem o marrom, o ocre e o vermelho envelhecido da casa paterna para explodirem as cores vivas dos artistas e das obras que passam a circundar Alejandro.

A presença dramática da mãe permanecerá relevante, transformada na colossal mulher que se apresenta como a primeira relação amorosa de Alejandro. Freud explica. E continuará explicando com a presença de espelhos que se multiplicam na história, como no personagem Enrique Lihn (Leandro Taub), quase um duplo do jovem poeta.

O espelho: presença recorrente em "Poesia sem fim"

Com fotografia de Christopher Doyle, “Poesia sem fim” não se pretende nunca naturalista. Se esta é uma história de vida passada a limpo, ela chega pelo crivo da arte, como se saída mesmo da mente do artista, em cores por vezes fortes e contrastantes, em outras, opacas e minimalistas. Os cenários e as situações são surreais, os diálogos, muito mais idealizados do que realistas. Cercado de uma trupe de artistas, de novo Alejandro se vê cercado de bicicletas, como no cabide da casa de Enrique Lihn ou no passeio que leva o grupo de volta ao bairro da infância do poeta.

O rescaldo da antiga residência revela objetos e lembranças dos tempos da opressão paterna e da presença ostensiva da mãe. Entre eles, de novo, a bicicleta, agora queimada, como símbolo da ruptura definitiva, um “rosebud” às avessas. A cinta da mãe, presa a balões que a elevam para a liberdade do céu, surge como homenagem àquela figura trágica que talvez tenha sido tão ou mais vítima do jugo paterno que o jovem Alejandro. O ambiente do país, entregue a um salvador da pátria fascista, típico das Américas, ancorado na perene luta contra a corrupção, oferece o argumento definitivo para a partida do poeta.


Alejandro segue para a Europa, não sem antes confrontar-se novamente com o pai, lutando literalmente com o velho tirano, depois de quebrar... um espelho. Filme ou psicanálise? Freud na veia, de novo. “Ao não me dar nada, você me deu tudo”, diz o filho já envelhecido para o pai, em uma conciliação só possível pela arte. Poesia pura, “Poesia sem fim”.

Wednesday, June 14, 2017

Minha namorada é meuzovo

O poeta Vinicius de Moraes, autor da letra de "Minha namorada"

Minha educação cultural começou pela via do "bom gosto". Lia clássicos, estudava música em conservatório, procurava os filmes mais estrelados pelos críticos. Foi importante para construir o hábito de fruição da arte.

A vida adulta desconstruiu quase tudo. Gente como Paulo Cesar de Araújo e, acima de todos, Pedro Alexandre Sanches, foram muito responsáveis por isso. O que é "bom gosto"? Por que Bossa Nova é melhor do que Funk? Marcel Proust ou história em quadrinhos? Ingmar Bergman ou Jackie Chan? Por que UM ou OUTRO?

Nessa desconstrução, o hábito de despir os medalhões e enxergar para além do rigor dos versos. Por exemplo, o machismo inerente em alguns "clássicos" da música brasileira. E nunca mais consegui ouvi-los sem que a editora feminista que mora em mim gritasse essa desconstrução.

"Minha namorada", música de Carlos Lyra e letra de Vinicius de Moraes, por exemplo:

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
(Nota da editora feminista: o cara já está assumindo – você é gata e estou a fim, aqui estão minhas condições, vê se você se enquadra)
Se quiser ser somente minha
(Nota da editora feminista: somente minha, entendeu? Quer tomar posse)
Exatamente essa coisinha
(Nota da editora feminista: chamou de “coisinha”, miga. Não preciso nem ir além na objetificação da pessoa, na diminuição etc. né?)
Essa coisa toda minha
(Nota da editora feminista: minha, minha, minha – esse cara é o Tio Patinhas?)
Que ninguém mais pode ser
(Nota da editora feminista: ah, mas que beleza de verso capcioso: ele diz que ninguém mais pode ser dele desse jeito. Jura de fidelidade? Vai nessa... Em algum lugar ele disse que ELE não pode ser de ninguém? A obsessão aqui é você, miga)
 Você tem que me fazer um juramento
(Nota da editora feminista: opa! Não basta a carta de intenções dele. Você tem que jurar por ela)
De só ter um pensamento
(Nota da editora feminista: não é  só que você não pode ser de ninguém mais. O cara quer vigiar até o que passa pela sua cabeça)
Ser só minha até morrer
(Nota da editora feminista: OK, a intenção pode até ter sido “um amor eterno, por toda a vida”, que será desconstruído adiante, mas esse “até morrer” me deu um arrepio)
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
(Nota da editora feminista: jeitinho, devagarinho – tudo da família da “coisinha” lá de cima)
Essas histórias de você
(Nota da editora feminista: claro que você só vai ter histórias de você para contar para ele, porque o bofe está querendo te colocar numa gaiola, vai falar do que mais?)
E de repente me fazer muito carinho
(Nota da editora feminista: é pra isso que você está lá, afinal)
E chorar bem de mansinho
(Nota da editora feminista: oi? O ideal de romance para esse psicopata é te ver CHORANDO? Esse homem é um sádico)
Sem ninguém saber por quê
(Nota da editora feminista: essa eu não sei nem por onde começar – ninguém vai saber... por quê? Porque briga de marido e mulher ninguém mete a colher? Porque “eu posso não saber por que estou batendo, mas ela sabe por que está apanhando”? Ou simplesmente porque ele acha – e gosta da ideia – de que mulher chora à toa?)
Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
(Nota da editora feminista: peraí, esse mundo maravilhoso que ele está descrevendo tem mais a oferecer...)
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
(Nota da editora feminista: pronto. Ele acabou de depositar em você a responsabilidade pela vida DELE.)
Você tem que vir comigo em meu caminho
(Nota da editora feminista: até que demorou para ele dizer, de novo, o que você TEM que fazer)
E talvez o meu caminho seja triste pra você
(Nota da editora feminista: Rá! Não falha nunca: “estou avisando antes, não vá reclamar depois”)
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
(Nota da editora feminista: não tinha ficado claro, ainda, que você não vai poder olhar pros lados?)
Os seus braços o meu ninho
(Nota da editora feminista: porque, obviamente, ele TINHA que te colocar no lugar da mãe dele)
No silêncio de depois
(Nota da editora feminista: depois do quê? Do ato? Silêncio? Vira pro lado e dorme?)
E você tem que ser a estrela derradeira
(Nota da editora feminista: você TEM que ser, entendeu?)
Minha amiga e companheira
(Nota da editora feminista: porque, além de namorada, amada e mãe, você também tem que exercer aquela camaradagem dos amigos, aquela compreensão, aquela companhia nos programas que ele quiser fazer etc.)
No infinito de nós dois

(Nota da editora feminista: considerando que o poeta em questão apregoava o “infinito enquanto dure”, é só juntar lé com cré: ele sabe que o troço vai acabar – como sempre acaba – mas enquanto durar, é tudo do jeito dele, entendeu?)

Nego do Borel e Anitta: aqui, não

Mais de cinquenta anos depois dessa estética e da lógica da Bossa Nova, a música popular continua idealizando o comportamento das mina. O Nego do Borel, por exemplo, chora o desprezo da moça que partiu seu coração e que agora, como prêmio, pode virar só "um pedacinho do esquema dele". Mas... sinal dos tempos, Anitta responde que nunca quis esse coração ("minha namorada" é meuzovo). Bossa Nova melhor que Funk? Pra quem?