Monday, April 17, 2017

Brasil em Cena

Julio Machado e Isabél Zuaa, em cena de "Joaquim", que estreia dia 20 de abril

A partir de hoje, meus textos também poderão ser lidos no site "Cinema em Cena", em uma nova coluna chamada "Brasil em Cena", dedicada à produção audiovisual no Brasil. Na primeira coluna, o destaque é o filme "Joaquim", o quinto longa do diretor pernambucano Marcelo Gomes. Entrevistei o Marcelo e dois atores do filme - Julio Machado e Isabél Zuaa. O conteúdo todo está aqui.

Só um trechinho da entrevista com o Marcelo, dando o tom:

Cinema em Cena – Existe um paralelo entre o Brasil Colonial de “Joaquim” e o momento atual do Brasil?
Marcelo Gomes – Acho que os personagens são muito contemporâneos, porque são contraditórios, humanos, têm objetivos muito específicos, pensam neles mesmos, porque estão em um momento salve-se quem puder. A ética da época faz com que Joaquim, mesmo cultivando pensamentos “humanistas”, não ache estranho ter escravos. Mas isso não é muito diferente de agora. A elite brasileira acha normal ter uma pessoa para limpar seu banheiro. Nós ainda precisamos viver um processo de descolonização na nossa cabeça, porque isso está presente até hoje, impregnado. Quando você chega a um edifício, em São Paulo, construído nos anos 70, 220 anos depois desse período, tem dois elevadores, o social e o de serviço, aí você chega na casa e tem duas portas, a social e a de serviço. Um europeu chega aqui e pergunta: o que é isso? É a casa grande e senzala verticalizada. Muda a face, mas no âmago está tudo ali.
Aqui, um trecho da entrevista com Isabél Zuaa:
Cinema em Cena – A mulher negra segue sendo a maior vítima na nossa sociedade?
Isabél Zuaa - No cinema, como na vida, a mulher negra é costumeiramente vista como o final da cadeia alimentar. Ela é vista para servir, ela é a barraqueira, mas por quê? Porque ela usa essas estratégias de resistência, como a Preta faz no filme: ela tem uma força física e uma força psicológica. Ela mata um homem e, diante de tudo que ela sofreu, o espectador se identifica com o gesto porque percebe que aquela foi uma reação, uma legítima defesa. O que a Preta faz com sua própria vida, no filme, é o que a gente chama hoje de empoderamento: é a reação de uma mulher negra em uma sociedade hostil a ela. E essa sociedade hostil continua, para mim. No entanto, eu tenho outros mecanismos para me impor, não precisei matar e fugir, mas eu tenho pessoas na família que precisaram fugir. Meus pais são africanos e passaram por duas guerras, em dois países africanos colonizados por Portugal. As consequências se mantêm: sabe lá o que alguém tirar você da sua terra e te dizer “você não pertence mais a esse lugar”? Isso é de uma violência extrema.
E um pedaço da conversa com Julio Machado:
Cinema em Cena – O protesto que a equipe fez, em Berlim, contra o atual governo no Brasil, traz algum temor em relação ao filme e à sua carreira?
Julio Machado - Nenhum temor! Estar vivo não permite ensaio. As coisas vão chegando e, se isso (um boicote ao filme) acontecer vai ser mais uma oportunidade para se revelar a mesquinharia dessa reação reacionária da nossa sociedade bipolar, que não se conhece. Que se enxerga no americano e no europeu e não se conhece, nunca leu um livro de história e fica tentando fazer discurso político sem conhecer nada. É uma distorção completa. É uma situação que a gente vê no filme como gênese e segue aí. Não tenho temor algum. Eu quero mais é que essas pessoas se revelem, que elas se manifestem, mas não escondidas atrás de um computador.

Monday, April 10, 2017

Mimadinhos

Lançado nos EUA em junho de 1982, só chegou ao Brasil em dezembro
No princípio, era o atraso. Os filmes eram lançados no mercado norte-americano e levavam muitos meses para estrear no Brasil. Não estou falando de filmes cult, aqueles que um grupo muito específico de espectadores quer assistir por ser o mais recente lançamento um diretor tailandês controverso ou de uma performer sérvia. Blockbuster mesmo, daqueles que estouram nas bilheterias e/ou colecionam estatuetas no Oscar.

“Guerra nas Estrelas”, por exemplo, foi lançado nos Estados Unidos em maio de 1977. No Brasil, oito meses depois, em janeiro de 1978. Em 1982, as coisas tinham mudado pouco: “E.T. – o extraterrestre” foi apresentado ao mundo no Festival de Cannes, em maio. Chegou aos cinemas norte-americanos em junho. Estreia no Brasil? 25 de dezembro. Havia uma tradicional convenção de atrelar os lançamentos de blockbusters ao período do Verão, e assim o público brasileiro esperava, pacientemente.

A mais recente "história Star Wars" estreou no mundo inteiro no mesmo dia

Quatro décadas depois, a dinâmica mudou completamente. A mais recente produção da série Guerra nas Estrelas – “Rogue One – Uma história Star Wars” – estreou no mundo inteiro no mesmo dia, em dezembro de 2016. Tempos de economia globalizada, de esforços concentrados para gerar alta receita, no menor tempo possível. Como tudo na vida, essa sincronia trouxe benefícios e desvantagens. Entre elas, uma espécie de fobia dos chamados “spoilers”.

Não conhece o termo? Sem problema. O dicionário Inglês-Português resolve: spoiler significa “destruidor, desmancha prazeres”. É derivado do verbo to spoil (estragar, malograr, deteriorar). No jargão dos fãs desse tipo de série, “dar spoiler” significa contar algum detalhe do filme (e nem precisa ser o final). Outra derivação do verbo é a palavra spoiled, que significa, em Português, mimado. Poucas associações podem ser tão significativas.

Veja a reação de um fã de alguma dessas séries (vale para as de TV também) diante da perspectiva de receber um spoiler. Parece uma criança contrariada, mimadinha que, diante da bronca, tapa os ouvidos e fica emitindo ruídos altos, para não escutar a voz dos pais. Juro que já ouvi, de um deles: “a pior coisa que uma pessoa pode fazer é dar um spoiler”.

Claro, alguns finais de filmes ou episódios, se revelados, roubam o elemento surpresa que os realizadores de filmes engendraram na trama. Saber antes que Bruce Willis também é um (assassino? psicopata? fantasma?) esvaziaria a grande revelação de “O sexto sentido”. Assim como descobrir que os personagens de “Lost” estavam todos (delirando? falidos? mortos?). Mas a turma, às vezes, exagera, como na vez que um crítico de cinema recebeu reclamações por ter revelado que Adolf Hitler morria (!) no filme sugestivamente intitulado “A queda – as últimas horas de Hitler” (!!).

Além disso, reduzir toda a obra cinematográfica “ao que acontece” é atestado de superficialidade. Se tivesse lido, antes de ver o filme, que o E.T. faz as bicicletas dos garotos voarem em determinada cena, por isso você teria deixado de se encantar com a poesia das imagens criadas por Steven Spielberg? Se soubesse antes que a personagem de Jodie Foster conversa com o espírito de seu adorado pai em “Contato”, ficaria menos emocionado com a beleza daquele encontro? Um filme não se resume ao que acontece nele, mas em como isso se apresenta na tela.

Sam Peckinpah: não conhece? Dá um Google e pronto

A geração que nunca precisou esperar um semestre inteiro para assistir a um filme já visto no Hemisfério Norte também parece se ressentir de referências a outras obras em resenhas e críticas de filmes. Já vi gente reclamando que, em tal texto sobre um filme de Quentin Tarantino, certo crítico fez referência a Sam Peckinpah. “Nunca ouvi falar desse cara, por que ele está citado aqui?”

Comumente, esse tipo de referência é lido pela horda de mimadinhos como exibicionismo do crítico quando, muito provavelmente, ela é um elemento a mais para a compreensão da obra analisada. Considerando que basta uma rápida consulta em um site de busca para saber que Sam Peckinpah foi um dos primeiros diretores a incorporar a violência de forma explícita em seus filmes, chega a dar pena da preguiça de alguns leitores, que deixariam de conhecer a fonte de um elemento fundamental na obra de seu cultuado Tarantino.


Lá nos anos 1980, 1990, quando havia uma referência desconhecida em uma crítica, a alternativa era procurar em livro, revistas especializadas. Com alguma sorte, encontrar um filme antigo em uma videolocadora. Hoje, com tudo mais fácil e à mão, descortinando praticamente a história do cinema em incontáveis conteúdos online, há quem reclame. Eles, os mimadinhos. 

Sunday, April 02, 2017

Mulheres do século 20



Eu achava que nenhum filme seria capaz de me tocar tanto, no que se refere à minha relação com meu filho, quanto “Tudo sobre minha mãe”, de Pedro Almodóvar. Até que assisti a “Mulheres do século 20”, escrito e dirigido por Mike Mills.

Mills é um autor que não tem medo de enfrentar a própria história como referência para seus longas. Ele já havia feito isso em “Toda forma de amor”, que rendeu um Oscar de ator coadjuvante a Christopher Plummer, centrado na figura de seu pai, e agora passa a limpo a relação com sua mãe, vivida por Annette Bening. Embora tenha como fio condutor as memórias de Jamie (Lucas Jade Zumann), toda a narrativa gira em torno da personagem Dorothea (Bening), mulher de 55 anos que cria sozinha o filho adolescente no final dos anos 1970, na Califórnia.

Na primeira sequência, mãe e filho estão fazendo compras em um supermercado quando descobrem que seu carro está pegando fogo no estacionamento. O velho Ford Galaxie parecia ser o último vínculo físico com o pai de Jamie, ex-marido de Dorothea que abandonou a família para viver “no Leste”, como genericamente cita o texto em off, dito pelo garoto.

De volta à casa, o relato do incêndio serve para apresentar os outros personagens de destaque na história: Abbie (Greta Gerwig), uma fotógrafa recuperando-se de um câncer ginecológico que aluga um quarto na casa de Dorothea, Julie (Elle Fanning), amiga de infância que divide com Jamie as incertezas e medos da adolescência, e William (Billy Crudup), hippie extemporâneo alojado no casarão que, entre a reforma do imóvel e consertos diversos, surge como autêntico quebra-galho para as duas mulheres adultas da trama.

“Mulheres do século 20” é um filme construído sob o ponto de vista feminino: diálogos explicitamente favoráveis ao empoderamento feminino, culto à liberdade sexual da mulher, presença solar de Bening, quatro vezes indicada ao Oscar de Melhor Atriz Principal que talvez tenha atingido, neste mais recente longa, sua plenitude na atuação. Mas o filme se torna explicitamente feminista pela forma com que retrata os homens.

No início da história, William raramente aparece de frente, sendo visto quase como um espectro de homem naquele universo. A falta do pai de Jamie (ou de uma figura que o represente em um corpo de homem) jamais será suprida por aquele bicho-grilo de meia idade que não parece empenhado em ser nada diferente do que um quebra-galho. O diálogo entre mãe e filho sobre o papel de um homem na vida de uma mulher ressalta o que ela não espera ver de Jamie no futuro: “os homens acham que precisam sempre estar na nossa vida para consertar alguma coisa, mas basta que estejam lá”.

Para garantir que o filho seja um homem diferente daqueles que cruzaram seu caminho, a mãe se apoia nas duas outras mulheres para pedir ajuda “na criação” de Jamie. Confrontada com as dificuldades da adolescência, Dorothea confia à inquilina e à jovem amiga do filho a incumbência de ajudá-la a atravessar essa fase, provavelmente por sentir que ambas, mais jovens que ela, conectam-se mais facilmente à mente do garoto de 15 anos. “Eu o conheço menos a cada dia”, constata a mãe depois de um acidente em que Jamie quase morre por conta de uma brincadeira estúpida entre adolescentes. “E você, fumando sem parar, não está procurando a morte também?”, questiona o jovem.

O cigarro está, de fato, presente em quase todas as cenas de Dorothea. Um diálogo entre ela e Julie pode parecer improvável nos dias atuais, mas é possível que toda família ocidental do século 20 tenha tido pelo menos uma mulher que se tornou fumante depois de adulta apenas pelo apelo de elegância com que o cigarro era vendido nas propagandas. A minha, pelo menos, teve.

Em mais de uma ocasião, os gestos e pensamentos de Dorothea serão embalados pela mítica “As time goes by”, trilha sonora de “Casablanca”. No entanto, em vez de começar com o tradicional verso “You must remember this”, a versão do filme de Mills começa com o pouco conhecido recitativo original, cujos versos dizem: “Esses dias e a era que estamos vivendo nos dão motivo de apreensão, com a velocidade e novas invenções e coisas na quarta dimensão/Embora fiquemos um pouco cansados com as teorias do Sr. Einstein, precisamos voltar à Terra de vez em quando, e liberar a tensão/E não importa o progresso ou o que ainda possa ser provado, os simples fatos da vida são tantos que não podem ser retirados.”

Dificilmente algo poderia expressar melhor a inquietação da mãe diante dos novos hábitos do filho – da música contemporânea às descobertas sobre as mulheres. E a frase recorrente de Jamie sobre a mãe (“Ela nasceu na Depressão”) surge ao mesmo tempo como uma justificativa para a aparente inadequação de Dorothea e uma inequívoca tentativa do jovem de estabelecer uma diferenciação entre o seu mundo e o dela, como se a percepção da individualidade daquele menino tenha sido postergada da primeira infância para a adolescência, provavelmente pela prevalência da figura materna em sua vida.

O pedido de Dorothea para que Abbie e Julie ajudem Jamie acaba criando uma espécie de “corrente do bem”, na qual aquela família informal se sustenta diante das crises. Pois, se Abbie introduz o garoto à cena punk e aos conceitos do feminismo (chocando Dorothea, como se a influência nesse campo tivesse ido longe demais), é Jamie quem segura a barra de Abbie em um dos momentos mais tocantes do filme. E o faz sem falar nada, sem querer consertar nada, apenas “estando lá”, como a mãe ensinou. E se Julie funciona como literal instrumento de fuga de Jamie, é ele também que a ajuda a enfrentar uma dúvida aterrorizante, daquelas que paralisam qualquer adolescente em algum momento da vida.

No entanto, todos esses elementos – Jamie, Abbie, Julie – de alguma forma fazem fluir seus pensamentos, conceitos e vivências de volta para Dorothea, contribuindo para sua própria reflexão de vida. Os conceitos rasteiros de psicologia repetidos por Julie (“A culpa sempre é da mãe”), a instigação de Abbie, falando sobre o amor materno ou sobre menstruação em um jantar com convidados, enfrentando de forma literalmente punk um assunto tabu, e os questionamentos de Jamie mostram que aquela mulher de 55 anos podia – e queria – dar novos rumos à sua vida.


Narrado como memória por um Justin adulto, o filme remete a “Entre dois amores”, de 1985, e a marcante sequência de um voo em um bimotor, lembrando a escritora Karen Blixen, ícone da independência feminina. Dorothea surge, então, como um produto contemporâneo dessa mulher emancipada, mas também ciente do confronto entre suas inseguranças e desejos. Eu não poderia me enxergar mais naquela mulher, e já estava banhada em lágrimas quando Justin questiona a si mesmo como definiria a mãe para os próprios filhos. “Explicar a eles como ela era? Impossível.” 

Monday, March 20, 2017

Silêncio: Scorsese traz Deus para o chão


"Silêncio"; o "olhar de Deus"

Está em “Taxi Driver”, em “Os bons companheiros”, em “Cassino”, em “Os infiltrados”. O “olhar de Deus” se faz presente praticamente em toda a obra do diretor Martin Scorsese. É aquela tomada do alto, perpendicular à cena, como se alguém observasse, do céu, os atos dos personagens. Uma presença vigilante, opressora em vários sentidos.

E está lá, logo no começo de “Silêncio”, mais recente longa do diretor: o “olhar de Deus” vigia os passos de três padres que se deslocam em uma escadaria enquanto acertam os detalhes para a ida de dois deles ao Japão. Olhando uma escada totalmente “de cima”, não se sabe, ao certo, que lado sobe, que lado desce, e é justamente essa dualidade que o filme de Scorsese parece colocar em cheque, estabelecendo um diálogo com a extensa filmografia do diretor.

A história se passa no século 17: dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) viajam ao Japão em busca de outro religioso da companhia (Liam Neeson), desaparecido depois de ter renegado sua fé no país que, a essa altura, perseguia os cristãos.

"Silêncio": no início, tons escuros e terrosos

Inexplicavelmente desprezado pela Academia, “Silêncio” recebeu apenas uma indicação ao Oscar deste ano: o de Fotografia (perdeu para La La Land). E este é, de fato, um dos maiores atributos do filme. Rodado quase exclusivamente em locações, “Silêncio” apoia-se em uma fotografia contemplativa, criando uma sequência de “quadros” permeados pela força da natureza de um Japão medieval.

Essa característica pode causar estranheza a quem associa a obra de Scorsese ao universo de gângsters, violência e sangue, retratadas na maioria das vezes com energia, por meio de movimentos de câmera ágeis. Mas, se a obra de Scorsese não se resume a esse universo e já tenha incorporado a temática da fé em outras produções (“A última tentação de Cristo”, “Kundun”), “Silêncio” parece contestar a onipresença da figura divina – e da Igreja Católica – acrescentando um olhar diferente, sob outra perspectiva.

A fotografia predominantemente escura do início do filme reforça, a todo o tempo, a presença da terra e de seus tons de marrom. Ela está nas roupas dos padres e dos fiéis, nas paredes da caverna que os escondem, nos pés de barro, fartamente focalizados em uma cena recorrente: o ato de renegar a fé em Jesus, literalmente pisando em figuras representativas do chamado Filho de Deus.

Renegando Cristo: Deus está no chão

À medida em que vai avançando para seu terceiro ato, “Silêncio” também joga luzes sobre sua fotografia, como se a malfadada experiência católica no Japão esclarecesse a real imagem de Deus para aquele povo, modificando inclusive a visão de pelo menos um dos padres dessa missão. Scorsese não apenas parece abandonar o “olhar de Deus”, lá do alto, como traz essa presença para o nível dos mortais, e rente ao chão, sujo de terra, até literalmente jogá-la para debaixo do solo, no comovente desfecho do filme.

Outro aspecto destacável do longa está, como não poderia deixar de ser, em seu som. As súplicas dos fiéis, padres inclusive, resultam no frustrante “Silêncio” de Deus diante do sofrimento, da abnegação, da incompreensão dos homens. E a forma pela qual Scorsese aborda esse silêncio é minimalista e corajosa. Praticamente sem trilha sonora, o filme se apoia nos chamados sons “diegéticos” (que os personagens também estão ouvindo), reforçando a presença da natureza hostil àquelas pessoas (natureza hostil inclusive no que se refere aos humanos antagonistas da trama).

Garfield: papel muito mais complexo que em "Até o último homem"
 Sem o reforço dramático que a música pode conferir a uma produção como “Silêncio”, o peso da interpretação dos atores (especialmente Andrew Garfield, cuja figura vai se assemelhando à representação de Jesus Cristo ao longo do filme) torna-se ainda mais relevante, e parece ainda menos compreensível o desprezo da Academia pelo filme. E quase uma heresia pensar que “Até o último homem”, dirigido por Mel Gibson, tenha não apenas sido indicado ao prêmio de Melhor Filme como rendido a Garfield uma indicação ao prêmio de Melhor Ator, sendo o papel dele em “Silêncio” incomparavelmente mais desafiador.

Martin Scorsese: ajuste de contas


Longa vida a Martin Scorsese: que seu gênio criativo continue brindando os cinéfilos de todo o mundo com outras obras-primas como “Silêncio”. Mas, se quisesse se aposentar agora, o sofrido relato de dois padres portugueses no Japão seria um belíssimo encerramento de ciclo – e talvez um ajuste de contas – com a culpa católica que sempre permeou a obra do cineasta.

Sunday, March 12, 2017

Fora, Violet



“O que é um fim de semana?”

Com um ar meio aparvalhado, Violet Crawley genuinamente não entendeu o significado daquela expressão. O jovem Matthew tinha chegado a Downton Abbey como herdeiro improvável da fortuna da família. Primo distante, ele só assumiria esse papel caso o primeiro nome na linha de sucessão morresse. Como convém a uma obra de ficção, o herdeiro não só morreu como morreu no naufrágio do Titanic.

Sem perspectiva de passar a vida apenas usufruindo o dinheiro dos ancestrais nobres, Matthew não tinha sido criado para ser herdeiro. Por isso, estudou e arranjou algo exótico para aquela família de aristocratas a um passo da falência: um emprego. Quem tem emprego precisa de um intervalo para descansar. E faz isso em um final de semana. Quem não tem emprego, de fato, haverá de ter alguma dificuldade em compreender o significado, ou antes, a necessidade de dois dias de ócio.

Violet, interpretada pela atriz inglesa Maggie Smith, não estava errada. Era apenas a personificação do anacronismo. Arraigada a uma tradição medieval, enxergava-se como membro de uma estirpe superior, que não precisava (nem deveria) ter preocupações com dinheiro ou bens materiais. Aos nobres, essas coisas simplesmente apareciam, herdadas de geração em geração. Tinha sido sempre assim, e assim haveria de continuar. (Não me parece muito diferente da visão de alguns herdeiros da burguesia no século 21, mas isso é outra história.)

Temer: machista e míope


Lembrei essa passagem do seriado nesta semana, quando o “presidente” Michel Temer exaltou o papel das mulheres na sociedade como relevante para aferir preços em supermercados e criar filhos. A grita feminista foi instantânea, gerando protestos, textos, memes, piadas, parodia de música, discussões. É claro que a visão de Temer tinha de ser confrontada pelo viés feminista, mas ela me parece ter um forte componente classista também. E foi por isso que ela me remeteu à frase da aristocrata de Downton Abbey.

Usando o próprio seriado como exemplo: para manter o funcionamento da propriedade dos Crawley, a casa era coalhada de serviçais, em número bem maior que o da própria família. Entre eles, um contingente expressivo de... mulheres. Elas estavam lá para limpar, arrumar a casa e cozinhar, além de vestir e pentear as mulheres da família, cuidar de bebês e crianças.

Uma passagem em particular ilustra como a relação entre mães e filhos, no ambiente aristocrata, tinha muito pouco de afeto e convivência: questionada pela filha sobre seu pouco interesse na vida dela, a idosa Violet defende-se, dizendo que não havia transcorrido um dia sequer sem ela passar “pelo menos uma hora” com seus filhos, deixando claro que as outras 23 eram atribuição delas, as criadas.

A criadagem de Downton Abbey: exército de mulheres


Ambientado no início do século 20, o programa de TV faz o retrato de um período, mas historicamente nós sabemos que a presença da mulher como força de trabalho sempre existiu. Fosse como serviçal remunerada ou como escrava. Cem anos depois, esse panorama mudou timidamente. (Sim, timidamente, pois se ainda estamos discutindo paridade salarial, significa que ainda temos muito a avançar.) Quando estranhamos a fala de Temer, pelo anacronismo semelhante ao da aristocrata do seriado, estamos olhando para um perfil de mulher da classe média ou da elite que de fato avançou no mercado de trabalho.

E é absolutamente legítimo que nós, desta quase casta, tenhamos o direito de nos sentirmos ofendidas, por não reconhecermos as compras para o lar e a criação de filhos como nossas únicas atribuições. Mas ao reduzir as mulheres a isso, Temer não foi só machista, foi classista também, por ignorar que essa figura anacrônica de dona de casa e mãe sempre contou – antes e agora, com variações – com um exército de mensalistas, diaristas, cozinheiras, babás, atendentes de lojas, garçonetes, ascensoristas, manicures, cabeleireiras, depiladoras etc. etc. etc.


Da mesma forma que Violet ignorava o conceito de trabalho e as pessoas responsáveis por executá-lo, Temer explicita uma visão míope sobre a própria casta a que pertence. E ignora a maior parte da população feminina, que trabalha agora, e sempre trabalhou, mas parece invisível aos olhos dessa casta.

Monday, January 23, 2017

"Já vi melhores"

"Ponteio": Marília Medalha, Edu Lobo e Momento Quatro, no festival de 1967
Há alguns anos, levei minha mãe para assistir no cinema um dos documentários brasileiros de que mais gostei nos últimos tempos: “Uma noite em 67”, de Ricardo Calil e Renato Terra. Reconstitui a história do 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, um evento que se tornou histórico por aspectos culturais, sociais e políticos. O filme começa com a apresentação apoteótica da canção vencedora – “Ponteio”, composta por Edu Lobo e Capinam – e ao final da música, eu e minha mãe tínhamos lágrimas escorrendo pelo rosto.

Ela havia vivenciado a época, o que poderia explicar um traço de memória afetiva naquela emoção incontida. Ao final do filme, ela explicou as lágrimas como resultado de pura emoção diante da beleza daquela música e de sua execução majestosa. E eu, por que havia chorado? Em parte, pela mesma razão, pura fruição da arte, mas também havia outro componente naquele choro: a manjada saudade de algo que não se viveu. No caso, a era dos festivais.



Algumas tentativas de reeditar os festivais, nos anos 1980, renderam bons momentos à cena musical brasileira, mas a comparação entre os legados das duas épocas escancarava uma sova impiedosa dos anos 1960. O que ficava, nesses esforços extemporâneos, era uma sensação acentuada de nostalgia. Foi o sentimento mais forte que se plantou em mim, depois de assistir ao musical “La La Land – Cantando estações”, que conta a história da aspirante a atriz Mia (Emma Stone) e do pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling), ambos em busca do sucesso, em Los Angeles.

Adoro musicais e talvez o primeiro filme que tenha me marcado profundamente foi “O calhambeque mágico”, um musical de 1968, que conheci ainda pequena, pela TV. Musicais são quase sempre um convite ao escapismo, mas também elevam a exigência sobre elementos essenciais do cinema: não se faz um grande filme desse gênero sem um ótimo roteiro, sem uma montagem perfeita, sem músicas excelentes, sem uma direção de arte afiada, sem artistas completos que saibam representar, dançar e cantar.

“La La Land – Cantando estações” não é um desastre em nenhum desses aspectos, mas também não é “o estado da arte” em nada disso. É OK, e a maneira pela qual referencia o próprio gênero a todo o tempo parece se assumir mais como homenagem nostálgica que como nova obra fundamental. Não pude pensar em outra coisa quando, em determinada cena, ao ser perguntada sobre a vista da cidade, a personagem Mia responde com um “já vi melhores”.

Mia (Stone), Sebastian (Gosling) e a vista de LA: já vi melhores

O diretor e roteirista Damien Chazelle, um jovem de 32 anos, em 2014 lançou o ótimo “Whiplash – Em busca da perfeição”, sobre outro aspirante a músico (um baterista de jazz atormentado por um professor sádico). Embora as duas histórias se passem no presente, algo de muito extemporâneo sobressai nos dois filmes: seus protagonistas são almas nostálgicas, buscando emular ícones do passado. Não parece muito diferente do que o próprio diretor faz, ao se lançar em um gênero que, mesmo ambientado no presente, soe tanto como símbolo de outros tempos. Mas é provável que o ponto mais fraco do filme de Chazelle seja um dos pilares do musical: justamente as músicas.


Uma tese fartamente discutida nos últimos anos pode explicar por que os formatos “festivais” e “musicais” pareçam anacrônicos, hoje em dia. Em 2004, o compositor Chico Buarque preconizou o fim da canção, teorizando que esse formato de expressão musical tão característico do século 20 parecia ter se esgotado. Uma tese de doutorado defendida por Acauam Silverio de Oliveira, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, debruçou-se sobre o tema, utilizando a experiência do grupo Racionais MC’s (“O fim da canção? Racionais MC's como efeitocolateral do sistema cancional brasileiro”)

Sendo ambos – festivais e musicais – estritamente dependentes desse formato, talvez as tentativas de revivê-los estejam condenadas ao ranço persistente da nostalgia. Nos anos 1980, antecipando essa discussão, Raul Seixas dizia “não diga que a canção está perdida / (...) tente outra vez”, o que pode reacender nossas esperanças de assistir a novos grandes musicais, como“Cantando na Chuva” ou “A noviça rebelde”, no futuro. Será?

Sunday, January 22, 2017

Todas as teclas




Voz para cantar não tinha. Com catorze anos, se fosse para ser cantora, já teria despontado como novo prodígio da Zona Norte, porque a cantoria no chuveiro, acompanhando o rádio, não faltava. Nada. Mas queria ser artista e pediu para ser matriculada no conservatório, para aprender piano. Pensa numa criatura obcecada por tirar nota alta. Hoje, chamam de nerd. Naquele tempo, CDF. Tornou-se rapidamente a CDF do conservatório, a ponto de cumprir dois anos em um, repetindo a prática no ano seguinte, tamanha dedicação.

A tarefa, diga-se, era mais fácil que derrubar presidente eleito na América Latina: as músicas ainda não eram nenhum Chopin, os solfejos, mera questão de estudo e, carta valiosa na manga, o conservatório pertencia a uma amiga da família. Mas a ex-aspirante a cantora e nova pianista começou a desconfiar que algo estava bem errado quando percebeu que tinha mais prazer em acompanhar as aulas de teoria musical que as de prática.

Teve certeza de que aquele não era seu lugar quando passou a conviver mais com outros alunos, e notar que a maioria deles se sentava ao piano diante de uma partitura desconhecida e tocava a música assim, de uma enfiada só, enquanto ela malhava dias e dias em cima de dois ou três compassos.

Chega. Não vou continuar com isso.

“Mas, olha, veja bem: no mínimo, é um diploma a mais, você pode dar aula de piano depois que se formar”, disse uma das professoras, tão vocacionada para tocar piano que tinha o desplante de mostrar ao aluno como era tal música dedilhando o teclado com uma caneta entre os dedos e, acredite!, conversando e olhando para o interlocutor, como se estivesse trocando a marcha de um automóvel e papeando com o passageiro ao mesmo tempo.

A obsessão por notas altas também tinha outra variação: nunca deixar tarefas inacabadas e, ao longo dos anos, percebeu que só podia mesmo ser dona de uma mente altamente masoquista. Poderia ter se interessado por um curso de flauta. Não, piano: nove anos de estudo. Depois, meteu-se a esportista. Tênis? Natação? Vôlei. Ah, melhor ser maratonista, porque não deve ser impossível terminar uma corrida de 42 km. E assim foi, a fórceps, terminar o curso de piano.

À medida que o programa avançava, tinha a sensação de que arrancar um dente ou acompanhar o relato de uma cirurgia de hemorroida causaria menos sofrimento e incômodo que se entender com uma partitura de Tchaikovsky. A cada semestre, um exame prático colocava a criatura à prova de três mestres no conservatório. Executava duas ou três peças, era dispensada e sentia um alívio que só voltou a experimentar anos depois, quando, na solidão do banheiro, leu pela primeira vez a palavra “negativo”. Nesses momentos, tirava o mundo dos ombros e uma vez, tão nas nuvens estava, saiu do exame correndo pela rua, esquecendo os livros sobre a mesa dos examinadores.

Noah Taylor, em "Shine", na cena do colapso ao som de Rachmaninoff

 Anunciando a alforria, chegou o último ano e, com ele, a cerimônia de formatura. Não, não era só fazer mais um exame no conservatório, receber um canudo e correr para o anonimato. Havia um espetáculo, em um teatro, para convidados de todos os formandos, aqueles mesmos que tocavam Bach de ouvido e reconheciam harmonias de Mozart em jingle de refrigerante. Era como se, hoje, a “maratonista” resolvesse largar no pelotão de elite da São Silvestre. Estranho no ninho era pinto. Desfaçatez pouca é para os fracos. Foi.

Um acidente que se apaga da memória. O rosto proferindo as palavras que precedem o pé na bunda. Aquelas experiências que você sabe que viveu, mas um mecanismo de defesa as bloqueia definitivamente. Só sabia que tinha sido um desastre. A família foi assistir e se comportou, dali para todo o sempre, como se estivesse diante das perguntas sobre aquela tia solteirona que passou uns meses no interior, para tratar de uma doença, e o que ela teve mesmo, vocês lembram? Tabu. Nunca foi buscar a fita de VHS com o filme do “espetáculo”.

Anos depois, assistindo ao filme “Shine” (Oscar de Melhor Ator para Geoffrey Rush), descobriu que “Rapsódia sobre um tema de Paganini”, de Sergei Rachmaninoff, a peça que estraçalhou em cima daquele palco naquele dia, foi a mesma que levou o pianista David Helfgott a um colapso nervoso. Saiu bem no lucro essa CDF de conservatório...

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Cesar Camargo Mariano, no espetáculo "Joined" - fotos Paula Marina Rocha


Na última sexta-feira, minha desastrosa carreira de concertista veio à memória depois que assisti ao magnífico espetáculo “Joined”, de Cesar Camargo Mariano, no SESC Pinheiros, em São Paulo. Nos tempos em que achava possível me tornar pianista, escutava quase todos os dias o álbum “Todas as Teclas”, com Cesar e Wagner Tiso. As do piano não me pertencem. Por sorte, as da teclas da escrita não me rejeitaram.