Monday, April 16, 2018

Max, o adultescente



"Os 40 são os novos 30." Sempre que vejo alguém reivindicar juventude onde deveria haver maturidade, tento ser condescendente. Afinal, uma das marcas mais significativas das últimas décadas foi a grande mudança demográfica pela qual a sociedade tem passado: estamos ficando mais velhos. Antes, era preciso começar a trabalhar cedo, casar cedo, ter filhos cedo, porque raramente se iria além dos 50 anos. Hoje, chegando e ultrapassando os 80, a visão do tempo mudou. A linha de chegada avançou muitos quilômetros nessa longa estrada da vida, e o ser humano sabe que, com enorme probabilidade, não terá chegado à metade da sua existência quando fizer 40 anos. Sendo assim, o que dizer de alguém de 20?

O piloto holandês Max Verstappen tem 20 anos. Fez sua estreia na Fórmula 1 em março de 2015, quando tinha apenas 17. Ou seja, podia pilotar um carro da categoria mais importante do planeta, mas ainda não podia dirigir pelas ruas. Foi um assombro: em sua segunda corrida, já conquistou um sétimo lugar. Marcou pontos em outros nove GPs, demonstrando o arrojo típico dos grandes talentos. A bordo de um carro da Toro Rosso, Verstappen cumpria o papel de jovem promessa na equipe que é o time B da Red Bull. Chamou tanta atenção que, no ano seguinte, fez apenas quatro corridas pelo time original, sendo promovido à Red Bull a partir do GP da Espanha. Nessa primeira corrida, justificou a pressa dos patrões em assegurar seu passe, colocando-o fora dos olhos grandes da Ferrari, que parecia cortejar o garoto. Conquistou nessa mesma corrida sua primeira vitória, beneficiando-se da colisão entre os favoritos Lewis Hamilton e Nico Rosberg, da Mercedes.

Verstappen muito rapidamente virou uma estrela na Fórmula 1. Com duplo apelo - o talento e a juventude - amealhou uma torcida jovem militante em sua causa. A cada prova, essa verdadeira esquadra passou a atuar em bloco nas eleições de "piloto do dia" e o holandês vencia quase sem esforço a sondagem realizada no site da Fórmula 1. No ano da estreia pela Red Bull, Verstappen terminou em quinto no campeonato, confirmando a boa aposta da chefia, ainda que a Red Bull não tivesse o mesmo nível técnico das rivais Mercedes e Ferrari. Em 2017, no entanto, os erros do holandês começaram a se proliferar.

É certo que ele perdeu muitos pontos por quebras do carro e situações em que sua culpa seria nula ou pelo menos relativa. Mas também é evidente que Max deixou de somar pontos para si (e para a equipe), por excesso de arrojo, como no GP da Hungria, em que uma ultrapassagem forçada pelo holandês tirou da prova Daniel Ricciardo, seu companheiro de equipe. Mas nenhum erro anterior parece tão determinante quanto a sequência estabanada do GP da China de 2018. Verstappen beneficiou-se da estratégia - e da agilidade - da Red Bull, que chamou seus dois pilotos ao box na mesma volta e trocou-lhes os pneus no momento exato em que o Safety Car aproximava os outros carros na pista.


Só que Max, com excesso de arrojo e falta de paciência, forçou duas ultrapassagens. Primeiro, sobre Hamilton, saindo da pista e sendo ultrapassado pelo companheiro Ricciardo. Depois, sobre Sebastian Vettel, fazendo com que os dois pilotos rodassem e ele mesmo recebesse uma punição de dez segundos. Vettel terminou a prova em oitavo, Verstappen, em quinto, assistindo a uma exibição irretocável do companheiro australiano. Finda a prova, o jovem holandês foi imediatamente pedir desculpas ao alemão, que aceitou e elogiou o gesto de mea culpa.

Do ponto de vista esportivo, a série de manobras desastrosas talvez ajude Max a aprender com os erros. Com apenas 20 anos, Verstappen pode se tornar um multicampeão no futuro, claro. A título de comparação, vale lembrar que alguns campeões recentes da categoria já estavam lutando e vencendo seus primeiros títulos em suas quartas temporadas (Michael Schumacher, Fernando Alonso e Sebastian Vettel, especificamente). Hamilton, outro caso raro, foi campeão no segundo ano e lutou por ele no primeiro. Schumacher foi campeão, pela primeira vez, com 25 anos. Alonso, com 24 (o campeão mais jovem até então). Vettel, com 23 (batendo o recorde de Hamilton).

Todos eles, em seus inícios de carreira, cometeram erros em profusão. Normal, esperado até. Em sua quarta temporada na Fórmula 1, Verstappen já tem experiência o suficiente para não poder mais ser considerado uma promessa. Se perder corridas como a da China, por sua própria culpa, já não pode colocar o revés na conta da pouca idade.

Os erros na China não anulam o enorme talento de Verstappen nem inviabilizam seu futuro promissor. Mas o que parece chocante é acompanhar sua massa de torcedores-seguidores deixando de enxergar a culpa do piloto nas duas manobras desastrosas. No fundo, o choque se desfaz quando voltamos lá para o começo da história e lembramos que um ser humano adulto, hoje, parece ter salvo-conduto para continuar imaturo aos 20 anos. Passando a mão na cabeça desses jovens tão talentosos, voluntariosos e, em muitos casos, privilegiados, estamos criando uma imensa população de "adultescentes".

Thursday, April 05, 2018

Dois cigarros: a transitoriedade de tudo

O primeiro romance do jornalista e escritor Flavio Gomes


Homens de meia idade costumam ser crianças crescidas, e por isso mesmo respondem à voz de comando de uma mulher com obediência canina. Talvez por serem de uma geração acostumada aos mimos de mães e avós zelosas e onipresentes, de alguma ou de várias formas parecem buscar essa segurança opressora vida afora. Da mesma forma que o instinto do cachorro faz com que ele aceite as ordens do dono porque vai receber comida depois, o homem entrado em anos recebe os desígnios da mulher em busca da recompensa carnal que ela eventualmente irá a ele destinar.

Dois cigarros, primeiro romance do jornalista e escritor Flavio Gomes, tem um protagonista sem nome consciente dessa condição. O livro, em primeira pessoa, é um relato de um homem de quarenta e poucos anos para uma mulher mais jovem. A relação comandante-comandado fica evidente logo nas primeiras páginas, que relatam uma viagem do casal a uma hipotética cidade do interior de Minas Gerais.

A jovem guia todos os passos da dupla, determina a dinâmica entre eles, escolhe dos passeios ao cardápio, passando pelas roupas dos dois. Ele obedece e se cala, como o cão que senta, deita, rola, vai buscar a bolinha, volta com a bolinha, abana o rabo porque sabe que, depois, vai ganhar ração.
Gomes, no lançamento do livro, em São Paulo
Só que a moça, além de altiva, é errática. Entra e sai da vida do tiozinho solitário sem aviso. Como tudo, aliás. Na vida dele. Na vida, apenas. Cada vez que volta, surge a bordo de ordens e mistérios. O domínio que exerce sobre o pobre macho pode lembrar o perfil da mulher desalmada de “Travessuras da menina má”, de Mario Vargas-Llosa. Mas, enquanto o protagonista do escritor peruano é um pobre diabo revestido de autocomiseração, o arquiteto errante de Flavio Gomes é um ser resignado. Não há nada de grandioso em sua existência – nem os prazeres, nem as danações.

Mas, se as autoimagens dos dois protagonistas são bastante diferentes, as visões que ambos têm das mulheres de seu desejo são totalmente opostas. O peruano ressentido parece sempre disposto a julgar o comportamento da “menina má”, inclusive como forma de reforçar sua própria miséria. O arquiteto/barqueiro/garçom de Flavio Gomes tem arroubos de raiva e desprezo pela jovem que o domina ao nível da paranoia, mas nunca a julga e, ainda que a ligação entre ambos seja carnal, o romance jamais resvala na descrição dos encontros físicos entre ambos. Elegância? Mistério? Algum pudor?

Não. Porque não é essa ligação física o que move a história. Um inesperado plot twist coloca Dois cigarros na trilha de uma narrativa em vários tempos, e é muito mais a vida daquele pobre diabo que passa a interessar o leitor. Costurada como um labirinto cujos caminhos, de alguma forma, irão se encontrar, a trama equilibra eventos frenéticos e divagações existencialistas de forma instigante, saborosa. Flavio Gomes tem um dos melhores textos do jornalismo esportivo brasileiro há quase trinta anos. Não é de se espantar que tenha trazido sua prosa altamente coloquial para o formato romance, legando ao público uma história sobre amor que é também sobre a vida, ou sobre a transitoriedade de tudo, inclusive dos sentimentos.

Desavisado, ou mal-intencionado, um leitor crítico poderia questionar: por que ele está contando para a mulher uma história que ela mesma viveu? Insignificante, resignado, blasé, aquele homem de meia idade nunca havia falado de sua (s) vida (s) para ninguém, nem para ela. Contar a história dela era uma forma de dar significado à existência banal dele. A narrativa o colocou no controle, porque todo homem de meia idade é uma criança crescida, mas grita por dentro a necessidade de ser pelo menos um pouco macho alfa.

Sobre o livro, lançado pela Gulliver, acesse aqui

Wednesday, April 04, 2018

1968, o ano que terminou em abril*

Jim Clark e Graham Hill: a batalha que não houve
Enquanto você estourava champanhe, pulava sete ondas, comia lentilhas, guardava caroços de romã na carteira, ouvia a mesma história daquele tio pelo oitavo Réveillon seguido ou curava as bolhas ganhas na São Silvestre, a Fórmula 1 registrava quarenta anos da última vitória de Jim Clark, em Kyalami, tornando-se o escocês o maior vencedor da Fórmula 1 até então, com 25 vitórias, superando Juan Manuel Fangio. A informação pode soar estranha – corrida de Fórmula 1 no dia 1º de janeiro?
Sim, e a estranheza tende a aumentar quando se descobre que a segunda corrida daquele campeonato de 1968 só aconteceria mais de quatro meses depois. Outros tempos, sem o foco da Fórmula 1 ajustado no binômio negócios-espetáculo que passou a nortear os eventos esportivos nos últimos anos. A lógica era simples: escapar o quanto fosse possível do inverno. Assim, era natural ter uma corrida na África do Sul em janeiro, em pleno verão no hemisfério sul, e só retomar o calendário na primavera europeia.
Clark venceu a prova de abertura em 1º de janeiro. Quando a Fórmula 1 desembarcou na Europa, para o GP da Espanha, em 12 de maio, o então líder do campeonato e bicampeão da categoria (1963 e 1965) estava morto. Em 7 de abril daquele ano, Clark perderia a vida em uma etapa do Campeonato Europeu de Fórmula 2, em Hockenheim, na Alemanha. Outro aspecto que, à luz de quarenta anos passados, pode parecer sem sentido. Clark correndo de Fórmula 2 em 1968 seria o mesmo que Fernando Alonso disputando uma prova da GP2 atual. Mais ou menos.
Naquele tempo, era comum ter pilotos da Fórmula 1 disputando provas da Fórmula 2. Desta mesma corrida em Hockenheim, participaram, por exemplo, pilotos do quilate de Graham Hill, companheiro de Clark na Lotus, e também campeão do mundo, e Chris Amon. Não havia nada de extraordinário, portanto, nesse cruzamento de pilotos e categorias. Além do mais, a Fórmula 1 vivia seu longo período de hibernação.
Clark perdeu o controle de seu carro na sétima volta, entrou por um trecho da floresta e bateu de lado, violentamente, em uma árvore, na altura do cockpit, morte instantânea. A vitória do escocês na prova de abertura era um prenúncio da alta competitividade do Lotus 49, o modelo criado por Colin Chapman para aquela temporada. Ao lado de Clark, no pódio, aparecia seu companheiro Graham Hill logo na segunda posição.
Após a morte de Clark, Hill venceu as duas corridas seguintes, depois amargou uma sucessão de quebras em quatro provas consecutivas, voltando ao pódio mais três vezes na segunda metade do campeonato. Foi campeão com doze pontos de vantagem sobre Jackie Stewart. É claro que a chance de Clark ter vencido esse campeonato seria enorme. Era um piloto de 32 anos, no auge da forma, com um carro vencedor, gozando de prestígio e, mais do que isso, de amizade junto ao dono da equipe.
O ano da morte de Jim Clark, 1968, é considerado um marco da história contemporânea. Tendo morrido em abril, Clark ainda teve tempo de ouvir falar de algumas notícias que mudariam para sempre a face da política e da cultura mundial naquele ano: os primeiros protestos nos EUA contra a guerra do Vietnã, a viagem dos Beatles à Índia, onde se aproximaram da cultura oriental, o assassinato do líder Martin Luther King, três dias antes do acidente fatal com o escocês.
Mas Clark não viu, por exemplo, os estudantes franceses protestando contra o governo reacionário de Charles de Gaulle no famoso maio de 68, não soube do assassinato do senador Robert Kennedy, nem viu os tanques soviéticos invadindo a Tchecoslováquia depois da frustrada “Primavera de Praga”, nem o protesto anti-racista dos Panteras Negras durante os Jogos Olímpicos, no México. Tudo em 1968.
Isso para não mencionar fatos marcantes da história brasileira, que certamente não chegariam aos ouvidos de Clark, como a ação do movimento estudantil, o advento da Tropicália e o endurecimento da ditadura militar, culminando com o decreto do Ato Institucional número 5, o tristemente célebre AI-5.
O ano de 1968, cujos fatos chegam agora a seu 40º aniversário, significou um momento de rupturas múltiplas. Na ordem política, se por um lado a chamada sociedade civil começava a se mobilizar contra regimes autoritários, por outro, vários países viram recrudescer sistemas anti-democráticos. No âmbito social, floresceram como nunca antes os movimentos feministas, anti-racistas, a luta pela liberdade sexual.
E, ainda, no campo cultural, multiplicou-se o experimentalismo, a liberdade criativa, a utilização da arte como forma de protesto e engajamento sócio-político. Muito do que se plantou em 1968 continuou dando frutos nos anos seguintes, modificando drasticamente a política, os costumes, a vida no final do século 20. Por essa perenidade e prevalência nos tempos que se seguiram, 1968 foi chamado, pelo escritor Zuenir Ventura, em seu livro lançado em 1987, de “o ano que não terminou”.
Na Fórmula 1, não foi bem assim. A morte de Clark foi um golpe severo para a categoria, ainda que tenha acontecido em um período no qual, afinal de contas, morrer nas pistas não era um evento raro. Clark era uma das principais estrelas da Fórmula 1 naquele tempo, e galgava célere os degraus rumo ao posto de maior piloto da história.
Seu número de vitórias, 25 em 72 GPs disputados, coloca-o ainda hoje em sexto lugar entre os maiores vencedores da Fórmula 1, 40 anos após sua morte. Há quem diga que Clark abandonaria as pistas no final daquele ano, para se casar. Difícil imaginar que, com um terceiro título no currículo, e com a Lotus em seus melhores dias, o escocês abriria mão de tentar ser o maior de todos os tempos. Especular sobre os anos seguintes é temerário, mas não há grande chance de errar sobre o título de 1968.
Clark e Hill na mesma equipe, adversários históricos. Hill foi vice-campeão nas temporadas que consagraram Clark (1963 e 1965), roubou-lhe o título de 1962 e a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis de 1966. À frente da concorrência, a Lotus dominaria amplamente aquele campeonato de 1968, com a promessa de uma disputa acirrada pelo título entre seus dois pilotos. Sobrou só Hill.
Aquela árvore, naquela pista alemã, naquela tarde de abril, na sétima volta encerrou o ano precocemente para a Fórmula 1. 1968 terminou ali.
*Coluna publicada originalmente em abril de 2008

Sunday, March 25, 2018

Tudo bem no ano que vem

Vettel à frente, Hamilton atrás: 33 voltas de suspense sem ação
O frisson pelo início de uma nova temporada de Fórmula 1 parece ter se desmanchado no ar, com o GP da Austrália que aconteceu neste domingo, no Albert Park, em Melbourne. Basicamente, porque a história da corrida foi bastante semelhante com a do ano passado, com Lewis Hamilton e a Mercedes dominando treinos e classificação, para desaguar em outra vitória de Sebastian Vettel a bordo da Ferrari, com uma estratégia melhor e um senso de oportunidade apurado, aproveitando-se da entrada de um safety car.

O encontro marcado de Vettel com a vitória, em Melbourne, parece reeditar o início da temporada, mas o gostinho amargo de energético light (madrugada, amigos...) ficou por outro motivo. Desde a entrada do safety car (na volta 25, 58) tivemos três ameaças de batalhas que resultaram em nada. Hamilton no encalço de Vettel, Daniel Ricciardo ameaçando Kimi Raikkonen e Max Verstappen crescendo no retrovisor de Fernando Alonso. Ultrapassagem? Zero.

É certo que esse tem sido um problema recorrente, nos últimos anos na Fórmula 1. Criaram até uma comissão para enfrentar o problema. Inventaram uma asa móvel que facilita o trabalho de quem está atrás - e deixa o piloto à frente mais vulnerável, segundo eles mesmos. Às vezes, resolve. Em Melbourne, não costuma resolver. Neste ano, criaram uma terceira zona para ativação dessa asa, em vez das tradicionais duas. Resultado? Nenhum.

É lindo e empolgante ver Vettel e Hamilton duelando pela ponta, cada um fazendo sua volta mais rápida como resposta ao desafio proposto pelo adversário, na volta anterior. Mas, diante da ação em suspense, o espectador quer ver o desfecho do filme. A música mais agradável ao ouvido é aquela cuja melodia apresenta um fraseado que se resolve em um harmonioso acorde final. O prazer prolongado vira explosão quando se transforma em orgasmo (tirem as crianças da sala).

Ninguém aguenta trinta e três voltas de preparação para... nada.

A cada novo ano, a Fórmula 1 parece o casal de amantes que se encontra uma vez por ano, cheio de expectativas e saudades, para ao final do fim de semana voltar à sua rotina de sempre. Em linhas bem cruas, esse é o resumo da peça "Tudo bem no ano que vem", de Bernard Slate, depois transformada em filme de Robert Mulligan. E se parece cada vez mais com o roteiro da Fórmula 1, nos últimos anos.

Encontrar os responsáveis por essa situação pode ser uma aventura arqueológica, pela qual se escave o passado da categoria para descobrir, no final, que a Fórmula 1 sempre foi assim. Mas o campeão mundial de 1996, Damon Hill, meteu-se em uma treta saborosa com a Mercedes, ao apontar, feito um Daniel Blake no filme de Ken Loach, que a culpa por tudo isso é das corporações. Vale a pena estourar a pipoca e ler a sequência de alfinetadas mútuas. Estariam certos os arqueólogos da categoria, mas Damon também não está errado. Como sair desse nó? A Liberty Media, que administra a Fórmula 1 atualmente, parece estar tentando, mas também é nítido que, cedo ou tarde, vai ter que se entender (ou se desentender) com essa situação.



Sunday, March 18, 2018

Um sopro de esperança



Maria Rita e a orelha de Obá
Há algo de novo no samba de Maria Rita. Lançado no final de janeiro e já transformado em show, o novo trabalho chama-se “Amor e Música”. É o nome de uma das canções, mas é também um manifesto. No palco do Citibank Hall, em São Paulo, a cantora explica: “sou fruto do amor e da música, de duas pessoas que se amaram e eram músicos”. Mas, na leitura de alguns fãs, segundo ela, amor e música são os elementos de que o Brasil precisa para seguir em frente, superar esses tempos sombrios. E ela concebeu o show, de fato, como um rasgo de esperança. Como um sopro de esperança. E são os sopros que parecem algo de muito novo neste show.

A banda continua enxuta, e exposta no palco. Junto do teclado, da bateria, do contrabaixo e da percussão, dois instrumentos de sopro ajudam a encorpar o som ao vivo. Já estão presentes e evidentes no disco. Trazem um caráter épico, um samba enobrecido, saído do terreiro para a sala de espetáculo.

Em alguma medida, “Amor e Música” me traz recordações do primeiro disco de samba da mãe-mito. Elis entregou seu cartão de visitas de cantora adulta na forma de um LP chamado “Samba eu canto assim”, em 1965. Quando Maria Rita lançou seu primeiro disco só de sambas, “Samba meu”, escrevi sobre as diferenças entre as duas, neste texto. Onze anos depois de “Samba meu”, Maria Rita parece musicalmente muito mais próxima daquela Elis Regina tão jovem e ao mesmo tempo tão orquestral, dramática, diva. Depois de ter mergulhado na obra da mãe, em “Redescobrir”, Maria Rita já não precisa se afastar muito menos se espelhar em Elis. Foi lá e fez do seu jeito. E deixou muito claro: são duas artistas tão únicas que, a essa altura, confundi-las revela apenas a ignorância das obras de ambas.

Maria Rita abre o show com a música título, Amor e Música. O som começa, sobe o pano, ela já está lá, no centro do palco, junto a seus músicos. Sem entrada triunfante, sem suspense e facho de luz. Está lá, membro da banda, responsável pelo instrumento voz. O espetáculo, como era de se esperar, está recheado com as músicas do novo disco. Pinçadas, umas poucas canções de trabalhos anteriores. E centrar o show no disco novo foi atitude sábia porque o novo álbum é excelente, coeso. Como Elis, Maria Rita seguidamente apoia-se em dois ou três compositores para escolher o repertório de seus discos. Completa essa base com poucas canções de outros artistas. E o resultado é sempre uma obra coerente, que conta uma história.

E a história que Maria Rita parece querer contar, desta vez, é a de uma gente que resiste, que tem fé e esperança. Há tempos, tenho sentido muita saudade de Maria Rita cantando MPB e achei, tolamente, que esses tempos bicudos seriam motivo para ela entoar novos ou velhos Gonzaguinhas, Chicos Buarques, Miltons Nascimentos, bradando as verdades entaladas nas nossas gargantas. Tolice e preconceito meu. Maria Rita fez isso cantando samba. É certo que introduziu “O bêbado e a equilibrista”, João Bosco e Aldir Blanc, o hino da anistia que a mãe imortalizou. Mas só quem não tiver ouvidos vai deixar de ouvir as tantas mensagens políticas dos sambas desse espetáculo.

Talvez, tenhamos, nós, sociedade, cortado a própria orelha para não ouvir os gritos dos excluídos. Mas a Obá de Maria não nos deixa esquecer que a fé brasileira é de matriz africana misturada a santos católicos. É Iemanjá livrando nossos corpos e mentes de maldades e mal querências. É gira girando em um palco sofisticado da Zona Sul de São Paulo. É batuque, é guia no pescoço, é oferenda. Dois dias antes, mataram Marielle Franco, no Rio de Janeiro. Eu, talvez, quisesse que Maria falasse por ela. E falou. Porque, se isso que vi no palco não é mensagem política suficiente, cortemos a outra orelha também.
Elis Regina, em Montreux

Maria Rita, no espetáculo "Amor e Música"





































Em julho passado, Maria Rita comemorou seus quinze anos de carreira em um espetáculo naquele mesmo palco. Festa grandiosa, convidados de luxo, mas deu ruim. Sim, faltou voz, mas Maria não deixou calar. Dignamente, terminou o espetáculo, finado como DVD que não foi. Em 1979, Elis foi para Montreux, para o festival de jazz famoso. Algo desandou. Irreconhecível em algumas músicas, deu ruim. Um arrepio percorreu minha espinha quando vi Maria Rita surgindo com uma saia rodada, o cabelo preso em um coque, em cima daquele palco do Citibank Hall. Figurino e penteado muito parecidos com os da mãe, naquele Montreux malfadado.

Arrepio de pensar que, depois de um espetáculo que dá ruim, o show deve continuar, e o povo (Elis, Maria Rita, o Brasil) se supera. Os metais anunciam. Um sopro de esperança atinge meu rosto. Iremos achar o tom. Fazer com que fique bom. A gente vai ser feliz. O show tem que continuar.

Thursday, February 01, 2018

Grid Girls: uma questão de mercado


Entregador de leite, arrumador de pinos de boliche, despertador humano, cortador de gelo, acendedor de lampiões. Isso para ficar apenas em profissões, sem contar os carregadores de liteira e as amas de leite, que eram funções de escravos. A humanidade sempre assistiu à incorporação e ao desaparecimento de profissões, como sinais dos tempos.

Quando a Liberty, empresa que controla a Fórmula 1 atualmente, informou que estudava a ideia de eliminar as “grid girls” das corridas, a grita já começou. Nesta semana, a mudança foi anunciada: nada de mulheres gostosas segurando placas com os números dos pilotos.

Não foram poucos os comentários sobre o fim de uma profissão “que não tem mal nenhum em ser exercida”. Concordo. Como não havia mal nenhum em empregar garotos para levantar pinos de boliche ou submeter trabalhadores ao sacrifício de cortar gelo. Só que a humanidade se transforma, e não serei tola em usar a palavra “evolui”. Foram aspectos como o desenvolvimento industrial, com a automação, por exemplo, que eliminaram esses postos de trabalho.

O garoto pobre que levantava pinos de boliche para os burguesinhos se divertirem nas noites de sábado certamente saiu chutando pedra, chateado e desgostoso, quando perdeu seu emprego. E foi fazer outra coisa, simplesmente porque aquela função já não fazia sentido em uma sociedade industrial.

Eu adoraria pensar que a decisão da Liberty atende ao anseio de uma parte cada vez maior de mulheres que não deseja ser um objeto de decoração em um ambiente badalado, carregado de testosterona. Mas talvez o atendimento desse desejo tenha acontecido por uma via bem tortuosa.

Quando assumiu a Fórmula 1, a Liberty realizou uma pesquisade mercado junto ao seu público, para mapear quem anda assistindo às provas de Fórmula 1 e descobriu um público potencial considerável para aumentar sua lista de fãs do esporte – as mulheres.

Além de conquistar o público feminino que ainda não se interessa pelas corridas, a empresa percebeu que já estava, na órbita da Fórmula 1, um contingente de mulheres que já assistiam às provas. Faziam isso para acompanhar companheiros fanáticos pelas corridas, não amavam nem odiavam o esporte, mas também não se sentiam atraídas por ele. Não se sentiam representadas em um ambiente no qual as mulheres ocupavam espaço de figura decorativa.

É com olho nesse público potencial que a Fórmula 1 está. (Da mesma forma que quer cativar as companheiras, a Liberty também está empenhada em trazer os filhos desses fãs da categoria, porque a tal pesquisa apontou que a idade média dos fanáticos por corridas ultrapassava os 40 anos, ou seja, F1 em geral se tornou esporte de tiozinho.)

Em um tempo no qual as discussões sobre empoderamento feminino ganham repercussão, alinhar-se ao tema já é, por si só, uma forma de fazer barulho e, no mínimo, atrair a atenção do público que almeja. Tem muito menos feminismo e muito mais interesse de mercado na decisão da Liberty.


Mas é alentador saber que, como amas de leite ou levantadores de pinos de boliche, as “grid girls” ficaram para a história.

Thursday, December 28, 2017

Roda Gigante

Kate Winslet: uma Ginny complexa e amoral
Algo pode ser menos sutil do que um salva-vidas tornar-se amante de uma mulher casada e infeliz? Talvez o fato de seu marido trabalhar como mecânico de um carrossel, emulando uma vida que só gira, sem sair do lugar? Se for para enumerar os lugares-comuns de “Roda Gigante”, o mais recente filme de Woody Allen, talvez seja possível preencher vários parágrafos (o personagem-narrador, a trilha sonora composta por clássicos de jazz, o garoto desajustado e, não por acaso, fascinado por cinema). Mas enumerar as obviedades de “Roda Gigante” é um exercício mal-humorado de quem prefere ignorar seus grandes atributos.

O maior deles: Kate Winslet. Desde o lançamento, a personagem Ginny tem sido seguidamente comparada à Blanche DuBois de Vivien Leigh, de “Uma rua chamada pecado”, ou à Jasmine de Cate Blanchett, de “Blue Jasmine”, do mesmo Woody Allen (e o que seria Jasmine senão uma homenagem/releitura da própria Blanche?). Complexa e amoral, Ginny é daquelas pedras brutas que uma atriz como Winslet recebe e transforma em uma personagem indefinível, um misto de fragilidade e astúcia com a qual é impossível não se identificar.

Azul de tristeza: as cores falam em "Roda Gigante"
 Imersa em um cotidiano duro e enfadonho, Ginny trabalha como garçonete em um restaurante na já decadente Coney Island, nos anos 1950. Casada pela segunda vez com Humpty, um sujeito bruto (Jim Belushi) que ganha a vida cuidando do carrossel do parque, Ginny é uma ex-atriz que nunca obteve sucesso, casou-se com um baterista a quem traiu e com quem teve seu único filho, o garoto Richie (Jack Gore), que tem a estranha compulsão de atear fogo em objetos, e gasta o tempo que deveria passar na escola... no cinema. O salva-vidas Mickey (Justin Timberlake) aparece na vida de Ginny e os dois passam a ter um caso, até que ele conhece a filha de Humpty, Carolina (Juno Temple), recém-separada de um gângster, e se apaixona por ela.


Carolina: a enteada
Queixando-se de uma enxaqueca que parece eterna, Ginny tem a expressão torturada pela culpa. Em um cortante monólogo, ela explica como a traição ao primeiro marido desencadeou a série de infortúnios que a jogaram naquele universo. Ou, pelo menos, o que parece ser a explicação lógica para ela de todas as suas mazelas. O texto de Allen, o desempenho de Winslet, a direção, a fotografia e a direção de arte criaram juntos, neste monólogo, uma das sequências mais agudas que uma atriz entregou aos espectadores de cinema nos últimos anos. Ginny laça o espectador de forma tão arrebatadora que não é um risco muito grande acreditar que a plateia torcerá junta, por ela, por mais amoral que ela possa parecer.

“Roda Gigante” é Kate Winslet, e isso não é demérito para o filme. Os demais atores parecem se resignar – ou, antes, se orgulhar – por estar gravitando no mesmo ecossistema daquele monumento de atriz. No entanto, “Roda Gigante” não é só Kate Winslet. É um filme atormentado de Allen, forjado no desencanto das relações humanas e na inexorável certeza de que toda história pode ter algo mais cruel do que um fim: a inércia de continuar.

O apartamento-vitrine, banhado em vermelho: tudo exposto, tudo oculto
As cores dizem muito no novo filme de Allen. A fotografia do parceiro habitual, Vittorio Storaro, sustenta-se quase todo o tempo em um tripé vermelho-azul-amarelo, tons facilmente identificáveis com momentos específicos. Quase sempre em alta saturação, as cores gritam sentimentos e é quase cortante a tristeza de Ginny em certos momentos banhados de azul. Fortemente ancorado no apartamento de Ginny e Humpty, “Roda Gigante” brinca com paradoxos: a casa envidraçada, praticamente uma vitrine dentro do decadente parque, esconde atos terríveis e sentimentos destrutivos. E é muito revelador do moto-contínuo da história que Ginny diga à enteada que o local, antes, costumava abrigar um show de aberrações.

Usando o cenário como mais um objeto de opressão para aquelas tristes figuras, Allen vale-se de planos longos nos quais as colunas, janelas e cortinas da casa marcam as distâncias e barreiras entre os membros daquela família disfuncional onde o pequeno incendiário parece a figura humana mais próxima do saudável.

“Roda Gigante” tem sido apontado como uma alegoria de Allen para sua própria situação afetivo-familiar, desde que assumiu um romance com a enteada Soon-Yi Previn, sua esposa desde 1997. Ainda que uma das falas de Ginny não pudesse ser mais explícita no sentido de acusar Humpty quanto aos reais sentimentos dele por Carolina, parece meio forçado enxergar na trama qualquer auto referência, inclusive porque relacionamentos, amores, traições, desilusões são temas recorrentes na obra de Allen. E enxergar Ginny como resposta misógina de Allen à ex-esposa Mia Farrow, além de forçado, parece incoerente, porque Ginny torna-se tão humana que é impossível não se identificar com ela.

“Roda Gigante” pode não estar à altura de obras-primas de Woody Allen, como “Noivo neurótico, noiva nervosa”, “Hannah e suas irmãs” ou “A era do rádio”, mas a colcha de sentimentos e situações tão cruelmente engendrados na vida de uma pessoa comum, entregue pelo desempenho tão magistral de Kate Winslet, vale cada um dos 101 minutos do filme.